Agentes de IA foram usados para ataques a entidades governamentais no Brasil, diz CrowdStrike
A pesquisa analisou quatro grupos de ameaça até então não reportados, ativos entre maio e agosto de 2026. Um deles comprometeu entidades governamentais no Brasil e na Colômbia

Ataques usando agentes de inteligência artificial miraram entidades governamentais no Brasil e na Colômbia, além de empresas brasileiras e americanas de biotecnologia, saúde, alimentos e bebidas, varejo, tecnologia e turismo. A informação consta de um novo relatório da CrowdStrike que revelou ataques cibernéticos em que agentes de IA tomaram decisões e executaram comandos por conta própria. A pesquisa analisou quatro grupos de ameaça até então não reportados, ativos entre maio e agosto de 2026. Todos os grupos deixaram suas ferramentas de ataque expostas em diretórios abertos, o que permitiu à CrowdStrike analisar em detalhe como usam agentes de IA para conduzir as intrusões.
Entidades governamentais brasileiras foram alvo, com um dos grupos comprometendo entidades governamentais no Brasil e na Colômbia e mirando empresas brasileiras de biotecnologia, saúde, alimentos e bebidas, varejo, tecnologia e turismo. De acordo com a CrowdStrike, a IA decide e não apenas auxilia. Nos quatro casos, os grupos delegaram a agentes de IA decisões em todas as etapas do ataque, inclusive, o grupo que atuou no Brasil, que criou estruturas em que vários agentes especializados trabalham em paralelo. Em um dos casos documentados, contra uma organização de saúde na Argentina, o agente se movimentou pela rede, comprometeu um controlador de domínio e coletou credenciais em cerca de 20 minutos, sem orientação humana.
A empresa também apontou para travas de segurança sendo contornadas com alegação de “teste autorizado”: o método mais eficaz foi convencer o modelo de IA de que as ações faziam parte de testes de intrusão legítimos, os chamados pentests. O grupo que atacou o Brasil, por exemplo, instruiu o agente a considerar qualquer alvo como autorizado e a não perguntar sobre o escopo.
Entenda o ataque
Segundo a CrowdStrike, o grupo que comprometeu entidades governamentais brasileiras desenvolveu duas estruturas de ataque (frameworks) que dão ao agente de IA diferentes níveis de autonomia. Na primeira, o reconhecimento segue um roteiro fixo e a IA escolhe a próxima ação entre opções predefinidas. Na segunda, o agente atua sozinho, seguindo um procedimento detalhado, ou distribui tarefas entre vários agentes especializados em paralelo.
O operador, que fala chinês, acessa os modelos de IA por meio de um serviço intermediário (proxy) e prevê outros provedores de IA como alternativa caso o principal não esteja disponível. O código inclui recursos de instalação e versionamento, o que sugere desenvolvimento para ampla distribuição. O relatório não identifica as entidades afetadas nem quantifica o impacto.
Na América Latina, outro grupo usou uma arquitetura com dois agentes, um supervisor e um executor, para atacar ao menos 15 organizações de saúde na Argentina, e exfiltrou credenciais e registros médicos de ao menos uma vítima.
“Os casos mostram que agentes de IA já permitem que grupos com diferentes níveis de habilidade conduzam intrusões em velocidade de máquina, inclusive contra entidades no Brasil. As organizações brasileiras precisam assumir que o volume e a velocidade desses ataques vão crescer e preparar sua capacidade de detectar e responder na mesma velocidade”, afirma Jeferson Propheta, vice-presidente da CrowdStrike para a América do Sul.
A CrowdStrike avalia que, nos próximos 12 meses, intrusões apoiadas por agentes de IA vão quase certamente crescer em volume e sofisticação (confiança alta). Diz ainda que grupos de baixa habilidade poderão operar com eficácia e escala antes restritas a grupos criminosos organizados ou ligados a Estados (confiança moderada).
Segundo o relatório, o principal limitador da escala desses ataques hoje é o custo de processamento dos modelos de IA, e não a complexidade técnica das ferramentas dos criminosos. A telemetria da CrowdStrike já mostra três vezes mais intrusões com agentes de IA no segundo semestre de 2026 do que em todo o primeiro semestre. O Relatório Global de Ameaças 2026 da CrowdStrike já apontava alta de 89% na atividade de adversários com uso de IA em 2025.


