Tem gente fazendo hora extra. E tem empresa colecionando burnout

Por The Shift
No Brasil, 19% dos trabalhadores realizam entre 6 e 15 horas semanais extras sem pagamento adicional. Pelo menos 8% cumprem 16 horas ou mais por semana fora do horário, sem remuneração. Esse índice está muito perto da média de outros países latino-americanos, como Argentina (21% para 6-15 horas) e Chile (18% para 6-15 horas), como aponta um novo estudo da ADP Research.
O relatório, que analisou dados de mais de 39 mil trabalhadores em 36 países, mostra que o Brasil compartilha muitas das tendências globais do mundo do trabalho: além do trabalho extra não remunerado, engajamento moderado e insegurança profissional elevada.
A pesquisa da ADP mostra que o engajamento cresceu no último ano entre os trabalhadores brasileiros. O indicador foi de 27% em 2024 para 29% em 2025, indicando que a maioria dos profissionais não se sente muito conectada ao trabalho. Para efeito de comparação, a pesquisa indica que nos Estados Unidos, 23% dos trabalhadores se dizem altamente engajados. Na Alemanha, o número cai para 21%.
Os dados, embora diferentes, seguem na mesma linha do levantamento “Engaja S/A”, pesquisa da Flash em parceria com a FGV EAESP publicada no final do ano passado, em que 39% dos profissionais brasileiros se diziam engajados ou altamente engajados. Já entre as lideranças, o engajamento caiu de 72% para 65% em um ano, a maior retração. Na faixa da gerência média, o recuo foi de 54% para 49%. Além de preocupante, custa muito caro para as empresas: o custo médio anual de um executivo desengajado é estimado em R$ 72,4 mil, contra R$ 8,9 mil por gerente e R$ 561 por colaborador.
O engajamento está fortemente associado ao investimento das empresas em capacitação (reskilling/upskilling), confiança nas lideranças e redução do estresse no trabalho. Entre os trabalhadores que acreditam que seus empregadores investem em suas habilidades, 53% estão totalmente engajados, contra 12% quando esse suporte não existe, aponta a ADP.
Segurança está ligada a engajamento e produtividade
Apenas 23% dos trabalhadores brasileiros se sentem seguros em seus empregos contra uma possível demissão. Esse índice está pouco acima da Argentina (22%) e abaixo do Chile (27%) e do México (27%). É uma “segurança limitada”, que reflete o clima global de incerteza no mercado de trabalho.
Mesmo em economias desenvolvidas, os números são semelhantes. Segundo o relatório, globalmente apenas 22% dos trabalhadores dizem com certeza que seus empregos estão seguros, evidenciando um clima generalizado de insegurança profissional. A insegurança é maior entre os trabalhadores que ocupam posições hierárquicas mais baixas, ganham menos e realizam tarefas repetitivas.
A percepção de segurança profissional varia bastante de acordo com o tipo de trabalho. De forma global, o percentual que afirma que seu emprego está “protegido”:
- Knowledge workers: 30%
- Trabalhadores especializados: 18%
- Trabalhadores com tarefas repetitivas: 16%
Setores com maior sensação de segurança incluem:
- Finanças e Seguros
- Saúde e Assistência Social
- Serviços de Tecnologia
- Educação
Já setores como Transporte, Agricultura, Manufatura e Hotelaria apresentam menor percepção de estabilidade. Outro fator relevante é o nível hierárquico: executivos e alta liderança apresentam níveis muito maiores de segurança percebida do que gestores intermediários ou colaboradores.
O estudo mostra uma forte correlação entre segurança no emprego e desempenho no trabalho. Os trabalhadores que afirmam que seus empregos são seguros são:
- 6 vezes mais propensos a estar totalmente engajados no trabalho
- 6,3 vezes mais propensos a se sentirem motivados e comprometidos
- 3,3 vezes mais propensos a se considerar altamente produtivos
- 2 vezes mais propensos a permanecer na empresa
- 2,5 vezes menos propensos a sofrer estresse negativo
Eles também apresentam melhor percepção de saúde física e estabilidade financeira. Entre os trabalhadores do conhecimento, 51% dos que se sentem seguros dizem ter boa saúde física, contra 21% entre os que não se sentem seguros.
Quando se olha sob a ótica das empresas, há um desafio global: o “readiness gap” ou “lacuna de prontidão” por parte dos profissionais.

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