The Shift

A economia verde deixou de ser discurso. Virou prêmio de valuation

Empresas com receitas verdes crescem mais rápido, atraem capital mais barato e conquistam prêmios de avaliação de até 15%. O novo relatório do WEF e BCG explica por quê — e como entrar no jogo.

Por The Shift

O que até alguns anos era “narrativa”, agora tem números e evidências para levar ao board: a Economia Verde representa um mercado de mais de US$ 5 trilhões que deve chegar a US$ 7,1 trilhões até 2030, e que recompensa quem se expõe a ele. Empresas com receitas verdes crescem o dobro das convencionais e chegam a 33% ao ano em setores como Energia. Companhias com mais de 10% de receita verde tendem a receber prêmios em múltiplos de P/R (proporção Preço/Receita) e EV/R (Enterprise Value/Revenue), que aumentam conforme a fatia verde cresce. 

A Economia Verde é o segundo setor de crescimento mais rápido na última década, perdendo apenas para Tecnologia. Para as organizações envolvidas em mercados verdes, geralmente o capital chega mais barato e elas desfrutam de prêmios de avaliação, em comparação com outras do mercado. O que leva à questão: a sua empresa já faz parte desse grupo?

O relatório “Already a MultiTrillion-Dollar Market: CEO Guide to Growth in the Green Economy” (“Já um Mercado Multibilionário: Um Guia para CEOs sobre Crescimento na Economia Verde”, em tradução livre) se propõe a ser praticamente um guia para CEOs e boards que ainda insistem em ignorar as oportunidades desse mercado. 

análise do Fórum Econômico Mundial (WEF) em parceria com o BCG (Boston Consulting Group) considerou mais de 6500 empresas de capital aberto e mostra que as organizações que geram mais de 50% de suas receitas em mercados verdes frequentemente contam com prêmios de avaliação entre 12% e 15% nos mercados de capitais, o que reflete a confiança de investidores em sua resiliência e rentabilidade no longo prazo. A publicação antecede a 56ª Reunião Anual de Davos, no próximo mês. Quase um “presente” para quem ainda não faz parte do clube, mas quer entender o caminho das pedras.

1. Os números: um mercado que caminha para US$ 7 trilhões

Para entender melhor como a Economia Verde cresceu e se desenvolveu, vamos aos números. Em 2024, a chamada Economia Verde movimentou mais de US$ 5 trilhões em valor anual e deve continuar crescendo a uma taxa média anual de 6%, segundo o relatório.

É importante entender que esse mercado está longe de ser homogêneo. O estudo mostra que:

  • 78% do valor atual vem de soluções de mitigação de emissões, com destaque para transporte e mobilidade, responsáveis por 30% da receita total dos mercados verdes.
  • Os 22% restantes vêm de adaptação e resiliência, impulsionados principalmente por insumos agrícolas adaptados ao clima, materiais de construção resilientes e tecnologias de resfriamento. 

O que mais cresce dentro da economia verde

A decomposição do mercado ajuda a entender onde estão os motores de expansão até 2030. Segundo o relatório, os segmentos com maiores taxas anuais de crescimento (CAGR) projetadas são:

  • Gestão de carbono e metano: mais de 15% ao ano
  • Alimentos, agricultura e uso da terra: mais de 14% ao ano
  • Circularidade e gestão de resíduos: acima de 12% ao ano
  • Energia – oferta e otimização: mais de 9% ao ano
  • Transporte e mobilidade: acima de 7% ao ano
  • Soluções de adaptação e resiliência: acima de 6% ao ano

Na prática, isso significa que soluções que capturam, evitam ou reduzem emissões – dos créditos de carbono às tecnologias de captura e armazenamento (CCUS) – devem sair de nichos regulatórios para ocupar um espaço cada vez maior na matriz de negócios de empresas industriais, de energia, de infraestrutura e de serviços.

Um mercado “puxado” pela queda de custos

O salto recente da Economia Verde não aconteceu no vácuo. Ele está diretamente ligado à queda acelerada de custos de tecnologias-chave:

  • O custo da energia solar fotovoltaica caiu cerca de 90% desde 2010.
  • As baterias de íons de lítio usadas em veículos elétricos também ficaram aproximadamente 90% mais baratas no mesmo período.
  • A eólica offshore reduziu seus custos em cerca de 50%. 

Isso ajuda a explicar por que o Fórum Econômico aponta que mais de 50% das emissões globais já podem ser abatidas com tecnologias competitivas em custo em relação aos combustíveis fósseis, sem necessidade de subsídios em muitos mercados. Outras 20% das emissões poderiam ser reduzidas com tecnologias que enfrentam apenas uma desvantagem de custo moderada.

O pano de fundo: investimento em transição energética e empregos

Enquanto o relatório do Fórum Econômico Mundial foca na lógica de mercado, outros estudos ajudam a dimensionar a escala da transição em curso:

  • O investimento global na transição energética atingiu US$ 2,1 trilhões em 2024, um recorde histórico, 11% acima de 2023 e mais que o dobro do nível de 2020, segundo a BloombergNEF.
  • O investimento total em energia deve chegar a US$ 3,3 trilhões em 2025, com cerca de dois terços destinados a tecnologias de energia limpa , de renováveis a baterias, redes e eletrificação de transportes e indústria, aponta a IEA (Agência Internacional de Energia).
  • No mercado de trabalho, os empregos em energias renováveis chegaram a 16,2 milhões em 2023, ante 13,7 milhões em 2022 — o maior crescimento anual já registrado, como mostra levantamento da IRENA (Agência Internacional para as Energias Renováveis) e da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Em outras palavras, a Economia Verde é o pano de fundo de investimento, emprego e inovação que está redesenhando cadeias de valor inteiras.

2. O playbook dos vencedores na economia verde

Se o “porquê” está bem estabelecido, o relatório dedica um bloco inteiro ao “como”. A mensagem para as empresas; vencer na Economia Verde exige os mesmos fundamentos de qualquer negócio bem-sucedido. Mas, muitas vezes, é preciso ir além.

2.1. Fundamentos que não mudam

O WEF resume os fundamentos comuns a qualquer empresa vencedora, verde ou não:

  • Propósito e estratégia claros: saber exatamente que problema se quer resolver e qual posição se deseja ocupar na cadeia de valor.
  • Proposta de valor convincente: produtos e serviços que resolvem dores reais de clientes, não apenas “checklist” de ESG.
  • Modelo operacional ágil e escalável: capacidade de testar, ajustar e escalar rapidamente, sem se engessar em estruturas legadas.

Sem essa base, nenhuma empresa consegue navegar a combinação de incerteza tecnológica, regulação em mudança e ciclos de investimento intensivos que caracterizam a transição climática.

2.2.As alavancas adicionais da Economia Verde

É a partir daí que entra o “plus” exigido para competir em mercados verdes. O relatório destaca três movimentos típicos das empresas que mais se destacam:

  • Acelerar maturidade tecnológica e derrubar custos
  • Vencedores se posicionam como forças de aprendizado do setor, ajudando a levar tecnologias de estágios iniciais para economias de escala.
  • Isso envolve construir parcerias com fornecedores, clientes e governos para compartilhar riscos, estruturar pilotos e criar padrões técnicos que reduzam incerteza.
  • Molde regulatório e mobilização de early adopters
    • Em mercados novos, a fronteira entre o que é tecnicamente viável e o que é economicamente atrativo depende fortemente de regulação, incentivos, padrões e compras públicas.
    • Empresas líderes atuam como arquitetas de ecossistemas, ajudando a desenhar normas, certificações e mecanismos de mercado que tornem viáveis soluções verdes, principalmente em áreas como hidrogênio, CCUS e bioenergia avançada. 
  • Desbloquear “smart capital” para financiar o crescimento
    • Não basta ter acesso a capital; é preciso ter o “tipo certo de capital”, alinhado ao risco tecnológico e ao horizonte de retorno.
    • O relatório destaca que empresas bem posicionadas na Economia Verde conseguem usar uma combinação de capital de risco, dívida verde, financiamentos concessionais e parcerias público-privadas para viabilizar projetos que, vistos isoladamente, pareceriam arriscados demais.

Em conjunto, essas alavancas criam um ciclo virtuoso: tecnologias avançam na curva de aprendizado, custos caem, demanda aumenta, regulação se consolida, o risco percebido diminui e o capital fica ainda mais disponível.

3. Brasil e América Latina no mapa da Economia Verde

Embora o relatório tenha um foco global, dois trechos são particularmente relevantes para Brasil e América Latina: a evolução de renováveis na região e a posição brasileira em bioenergia.

3.1.América Latina: renováveis crescendo, mas abaixo do ritmo de outras regiões

Os dados compilados pelo WEF a partir da IEA mostram que a capacidade de geração renovável deve crescer em todas as regiões até 2030, mas com ritmos diferentes. No caso da América Latina, o estudo aponta que:

  • A capacidade de geração renovável deve crescer cerca de 6% ao ano entre 2024 e 2030.
  • A geração renovável efetiva (em TWh) cresce a uma taxa média anual de 4% no mesmo período.

Para efeito de comparação, a Índia registra um aumento de 16% na capacidade renovável, seguida pela China (15%). A média global está acima de 12%.

Do lado dos investimentos em energia limpa, o gráfico do relatório mostra que a região de América do Sul ampliou seus investimentos de US$ 45 bilhões em 2019 para US$ 81 bilhões em 2024, o que representa um crescimento médio anual de 8%. Esse avanço é relevante, mas ainda modesto quando comparado aos grandes blocos:

  • China: de US$ 372 bilhões para US$ 659 bilhões no período (12% ao ano).
  • União Europeia: de US$ 190 bilhões para US$ 410 bilhões (13% ao ano).
  • Estados Unidos: de US$ 226 bilhões para US$ 300 bilhões (10% ao ano).

O quadro reforça uma mensagem importante para a região: a América Latina tem base renovável forte e em expansão, mas não lidera a corrida em escala e velocidade de investimento.

3.2.Brasil: potência em biocombustíveis e empregos verdes

O Brasil se destaca como um dos países que mantêm suporte consistente aos biocombustíveis, especialmente os de primeira geração (como o etanol de cana). 

Segundo o estudo:

  • O país se beneficia de décadas de políticas pró-biocombustíveis, mandatos de mistura (blending) obrigatória na gasolina e no diesel.
  • Investimentos em infraestrutura flex-fuel, que permitem ao consumidor escolher a combinação entre etanol e gasolina na bomba.

Essa combinação consolidou o Brasil como referência global em bioenergia, em um momento em que a demanda por biocombustíveis avançados deve crescer fortemente para descarbonizar o transporte pesado, a aviação e parte da indústria.

Além disso, dados da IRENA e da OIT mostram que o país é um dos maiores empregadores em energia renovável no mundo:

No contexto da Economia Verde descrita pelo WEF, isso coloca o país em uma posição estratégica: capital humano, base industrial e histórico de política pública já existem. O desafio é acelerar em direção às novas ondas de crescimento, como hidrogênio de baixo carbono, armazenamento, mobilidade elétrica e soluções de adaptação climática.


Conteúdo originalmente produzido e publicado por The Shift.
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