“Daqui a cinco anos” é o maior prazo elástico da história da tecnologia

Por The Shift
Por décadas, algumas das tecnologias mais disruptivas da nossa era fizeram parte de uma espécie de purgatório científico. Computação quântica, fusão nuclear, robôs humanoides, aceleradores compactos, novos materiais funcionais, todas carregavam uma mesma promessa temporal: “cinco anos até a maturidade”. Um prazo que se renovava ano após ano, como se elas vivessem numa suspensão permanente entre o possível e o inalcançável.
No entanto, essas mesmas tecnologias são as que têm o maior potencial de transformação do século XXI. O fundo de venture capital Quantonation sabe bem o valor escondido nesse “limbo tecnológico”. Eles investem em startups globais early-stage focadas nos avanços da Física e da computação. Recentemente, resolveram explicar sua tese no paper “Investing in Perpetual Five-Year Technologies (PFYTs)“. As PFYTs são tecnologias que orbitam esse horizonte móvel não por falta de ciência, mas pela complexidade de escalar a Física no mundo real. São sistemas cuja entrada para o mundo comercial depende de um alinhamento entre avanços científicos, maturidade industrial, novas cadeias de suprimentos, políticas públicas adequadas e capital paciente. As PFYTs, aponta o documento, não são ficção científica, nem atraso científico, nem hype. Elas representam a próxima fronteira industrial.

“As PFYTs vêm devagar e, então, explodem de repente”, descreve Christophe Jurczak, Managing Partner da Quantonation, parafraseando Ernest Hemingway. O truque do sucesso, diz ele, é investir antes que a virada aconteça, pacientemente, enquanto ainda estão nesse platô de lentidão aparente. O conceito de PFYT surge como uma extensão natural da tese inicial da Quantonation, que se concentrava em tecnologias quânticas, e agora se expande para domínios adjacentes baseados em física profunda.
A prova da tese vem do fato de que várias delas já saíram do purgatório e estão “causando” no mercado:
- IA moderna: por 50 anos, redes neurais foram promessa adiada. Então, dados abundantes, GPUs e novos modelos fundacionais convergiram — e os “cinco anos” acabaram de repente, com uma aceleração que começou por volta de 2010.
- A Nvidia não é uma PFYT, mas é o melhor exemplo da ação dos enablers. Ao apostar por décadas em redes neurais e computação paralela, criou o “substrato físico” (as GPUs) da revolução da IA e soube transformar seus chips em força de mercado inigualável.
- SpaceX: Converteu a ambição de foguetes reutilizáveis, antes distante, em rotina operacional. Demonstrou que a física de longo horizonte pode gerar resultados em escala por meio da integração vertical e ciclos rápidos de construção-teste-aprendizado
- Robôs humanoides, como os da Figure AI, avançam agora porque IA, controle e sensores finalmente se encontraram no ponto certo.
- Outros Domínios: Veículos autônomos e Realidade Virtual/Aumentada
(AR/VR) também representam arcos de PFYT, avançando por meio de aprendizado profundo constante e melhorias regulatórias.
O encontro da Física com a Computação
Um ponto central do white paper é a fusão entre IA e Física, que a Quantonation chama de Physical AI. A tese: à medida que algoritmos, sensores e modelos passam a interagir diretamente com sistemas físicos (plasma, lasers, materiais, qubits), o ciclo de aprendizado se acelera dramaticamente.
IA descobre novos materiais, catalisadores e arquiteturas.
Sistemas físicos geram novos tipos de dados — que alimentam novos modelos.
Hardware e software passam a evoluir juntos, num processo de co-design contínuo.
É a compressão do ciclo de invenção: PFYTs começam a avançar na velocidade do cálculo, sem eliminar o desafio físico, mas reorganizando-o em iterações mais rápidas.
Lições para investidores
A principal tese da Quantonation é que o sucesso em PFYTs exige um modelo de capital de risco que vai além da simples paciência passiva. O papel do capital de risco não pode ser apenas “mapear, apostar e ser paciente”, sua importância reside no acompanhamento ativo. Lições para investidores:
- Orquestração de Ecossistemas: O investidor precisa ajudar ativamente a moldar consórcios, codesenvolver parcerias industriais e engajar agências públicas para desbloquear mercados. Fundadores de PFYTs, em vez de apenas buscarem capital, procuram parceiros capazes de orquestrar ecossistemas e pontes público-privadas.
- Gestão da Complexidade de Escalabilidade: O escalonamento de um protótipo para a implantação comercial exige cadeias de suprimentos robustas, infraestrutura de testes e maturidade regulatória. O capital de risco ativo garante o financiamento faseado adequado em cada ponto de inflexão (prova de conceito, demonstrador, piloto e escala).
- Disciplina e Marcos de Progresso: Embora o desenvolvimento seja longo, a paciência deve ser acompanhada por disciplina, estabelecendo marcos claros para garantir que o processo não se torne uma desculpa para inércia.
- Compressores de tempo: A IA agora atua como um participante no processo. A IA Física acelera a descoberta no mundo físico (por exemplo, encontrando novos materiais) e comprime o ciclo de experimentação e invenção. Isso permite que as PFYTs, historicamente definidas por loops de feedback lentos entre teoria e experimento, avancem no ritmo da computação.
- Investimento em Habilitadores (Pá e Picareta): As PFYTs dependem de tecnologias habilitadoras (detectores, criogenia, componentes fotônicos, por exemplo) valiosas por si só. Investir nessas “pá e picareta” permite capturar valor e retornos mais rápidos, mitigando o risco enquanto a tecnologia principal amadurece.
Em resumo, o documento posiciona as PFYTs como um ativo estratégico transformacional que exige que o investidor atue como um engenheiro ativo de paciência, impulsionando a convergência entre ciência, indústria e política para transformar o que é “sempre futuro” em uma realidade presente.
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