Conectividade na Amazônia é complexa, mas provedores avançam com oferta do serviço
Vice-presidente da Abranet, Jesaias Arruda, compartilhou que existe plano de provedores da Abranet de expandir a internet amazônica para regiões adjacentes, mas enfatizou que a região Norte é muito complexa.

A implantação da conectividade na Amazônia reflete um equilíbrio delicado entre os altos custos operacionais e a necessidade urgente de inclusão social, conforme apontaram especialistas que acompanham o desenvolvimento das infovias na região ao debater o tema em painel no AGC 2026, realizado em São Paulo. Jesaias Arruda, vice-presidente da Abranet e diretor da Bemol, compartilhou que existe um plano de provedores da Abranet de expandir a internet amazônica para regiões adjacentes, mas enfatizou que a região Norte é muito complexa.
De fato, a realidade operacional na floresta impõe desafios severos. Como exemplo, Jesaias Arruda contou que a ativação da rede ainda depende de fatores críticos, como a logística de instalação dificultada pelas maiores vazantes da história, que impedem o tráfego de barcos grandes em rios, atrasando cronogramas. Arruda também apontou que trechos da infovia 01 chegaram a ficar meses com rompimento ativo e a fibra ótica apagada.
“Quando penso no pequeno ou médio provedor, temos a deficiência, que, por mais que use a rede chegando pelo Norte Conectado, ainda temos uma grande criticidade de levar a internet para dentro. Têm sido construídas e expandidas redes com infraestrutura não apenas da infovia como de infraestrutura existente e usando todo tipo de conectividade, inclusive satelital”, salientou. Associados da Abranet estão dependendo da ativação de quem está nos consórcios das infovias, mas o custo para ativar a rede é alto, acrescentou Arruda.
Moisés Moreira, consultor na MM Consulting, abriu o debate lembrando que as premissas do edital do 5G já entendiam que as barreiras geográficas locais eram incompatíveis com os modelos tradicionais, exigindo um esforço para levar serviços de saúde, educação e segurança aos pontos mais remotos.
Esse esforço resultou no programa Norte Conectado, cuja primeira infovia piloto, a 00, foi implantada pela RNP. Segundo Eduardo Grizendi, diretor de engenharia e operações da RNP, o modelo adotado prevê que o setor privado assuma a operação e a manutenção da rede em um consórcio aberto, enquanto o setor público faz uso da infraestrutura sem custos.
Depois da infovia 00, a 01 foi implantada pela Entidade Administradora da Faixa (EAF). O modelo de negócio adotado é o de consórcio aberto. Nele, a infraestrutura é compartilhada entre o setor público, que faz uso da capacidade sem custo para suprir suas demandas, e pela iniciativa privada, com o consórcio tendo a obrigação de operar e manter a rede. Provedores e operadoras possuem até três anos para iluminar a fibra ótica, prazo que está vencendo agora para os participantes da Infovia 00.
Atualmente, a atenção se volta para a Infovia 02, que liga Manaus a Atalaia do Norte em um trajeto de 2 mil quilômetros passando por 19 cidades. Gina Marques, CEO da EAF, afirmou que a entrega desta etapa está prevista para junho e ressalta que o projeto busca reduzir o lapso entre a instalação da fibra e o uso efetivo pelas pessoas. Ela reforçou que o projeto das infovias é extremamente sustentável, já que vem passando cabos subfluviais enterrados ao longo de rios sem derrubada de árvores.
Com relação às demais infovias, Marques disse que a 05 está “na batalha de licença com intenção de lançar em junho”. Já a 06 e 08, com distâncias muito longas, precisam de estudo de viabilidade, uma vez que apresentam tem desafios maiores que 02.
Falando sobre investimentos na região amazônica, não apenas no lado brasileiro, como nos vizinhos, Daniel Cavalcanti, consultor externo do BID, explicou que o Banco Interamericano de Desenvolvimento monitora projetos com foco na integração regional, uma vez que as infovias brasileiras chegam às portas de vizinhos como Colômbia e Guiana, despertando interesse internacional.
“O BID é um importante financiador para o desenvolvimento na região, não apenas no Brasil como nos países vizinhos. Há projetos em desenvolvimento e o Brasil tem a liderança digital na Amazônia, o que desperta interesse dos vizinhos. Estamos desenvolvendo um projeto por enquanto de cooperação técnica que é a Amazônia Mais Conectada e Sustentável”, disse.
Nesse sentido, o BIS está cruzando dados de sua base de georreferencia C2DB com os de outros bancos, tanto públicos e privados no Brasil, para saber, por exemplo informações de topologia de rede, visando a identificar áreas para expansão e o que faz sentido para interiorização. “Essas soluções inovadoras exigem modelos de negócios e de tecnologia. Isso é o negócio do BID: financiar projetos de desenvolvimento que façam sentido do ponto de vista da sustentabilidade. Sabemos que conectividade hoje é oportunidade de transformação digital”, argumentou.
Levar a internet para os rincões do País tem benefícios claro para a população, conforme apontou Jesaias Arruda, da Abranet. “Na minha opinião, a infovia 02 é a mais importante para a Amazônia. Ela vai incluir as cidades no mundo digital; estamos falando de telemedicina, inclusões bancária, digital e social, educação a distância. Tudo chegando a esses lugares a partir da conectividade”, disse.
A expectativa é que também que a melhoria da internet aumente a chamada conectividade significativa que tem taxas muito menores nas regiões Norte e Norte na comparação com Sul e Sudeste.


