O crime continua o mesmo. O alvo ficou mais fácil

Por The Shift
Entra década, sai década, o interesse do crime pelo sistema financeiro e bancário nunca muda. Mas o que muda – de forma exponencial – é o ambiente em que esse interesse opera. Se, nos primeiros anos do século 21, o risco ainda estava concentrado em ataques físicos a agências, caixas eletrônicos e carros-fortes, os próximos 25 anos serão definidos por uma superfície de ataque muito mais ampla, distribuída e invisível.
O dinheiro tornou-se digital, os serviços financeiros expandiram para dentro de ecossistemas interconectados e o poder de transação migrou definitivamente para a palma da mão do cliente. Nesse novo cenário, os bancos permanecem no centro do alvo, mas agora inseridos em uma arquitetura muito mais complexa, dinâmica e exposta.
É a partir dessa transformação que a agenda de cibersegurança da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) se organiza em 2026, diz Valdir Assef Jr., gerente de Segurança Cibernética da Febraban. Mais do que acompanhar a evolução tecnológica, o desafio passa a ser governar a complexidade de um sistema financeiro cada vez mais digital, interoperável e dependente de cadeias extensas de parceiros, fornecedores e plataformas.
Quanto mais digital, mais humano
A tecnologia que evolui de forma igualmente acelerada e disruptiva é instrumento indispensável, mas o desafio daqui para frente carrega um paradoxo central: “Quanto mais digital se torna o sistema, mais essencial se torna o elemento humano”, diz Assef Jr.
Em entrevista exclusiva à The Shift, o executivo destaca que é o humano que define limites, interpreta riscos, estabelece governança e sustenta a confiança que permite ao sistema financeiro funcionar.
Essa equação tem dois componentes: de um lado, o “letramento de segurança do cliente”, uma condição necessária para reduzir vulnerabilidades em um ambiente onde fraude, manipulação e engenharia social evoluem na mesma velocidade da inovação. De outro lado, a construção de uma cadeia de confiança e colaboração entre instituições financeiras, empresas de tecnologia, prestadores de serviço, reguladores e demais atores do ecossistema, que ultrapassa definitivamente o perímetro dos bancos.
A geopolítica da cibersegurança
Infraestruturas críticas de Estados-nação, como Energia, Transporte, Telecomunicações, Água e Sistema Financeiro passam a integrar o campo potencial de ataques cibernéticos. Proteger o Sistema Financeiro, lembra Assef Jr., deixa de ser apenas uma questão operacional ou corporativa e passa a significar também proteger a estabilidade econômica, soberania tecnológica e confiança institucional.
Isso exige colaboração entre setor público, iniciativa privada e academia, combinando inteligência prática, pesquisa avançada e visão de longo prazo para enfrentar um adversário altamente organizado, que precisa encontrar apenas uma brecha para ter sucesso. Em um ambiente de riscos compartilhados, é a convergência entre múltiplos atores que produz resiliência sistêmica. A cibersegurança deixa de ser um tema técnico para se tornar um “pilar estrutural da estabilidade econômica e institucional” nos próximos anos.
O que está no radar dos bancos
- “Os ciberataques sistêmicos procuram vulnerabilidades na arquitetura do sistema financeiro digital, uma arquitetura que está em transformação contínua. Cada atualização exige análise de impacto, verificação de segurança, adaptação de controles. É uma corrida sem fim, que fica mais rápida e mais longa, porque há cada vez mais componentes para proteger.”
- “O sistema financeiro precisa estar presente em praticamente toda atividade econômica digital. Não é permitido ficar fora de nenhum segmento relevante. Esse movimento torna o ambiente ao mesmo tempo extremamente rico e extremamente complexo – e amplia proporcionalmente a superfície de risco que precisa ser protegida.”
- “As pessoas se encantam com a facilidade tecnológica, mas não avaliam o custo-benefício de abrir suas informações pessoais em diferentes plataformas, muitas vezes sem necessidade real. Por isso, a conscientização sobre segurança precisa começar cedo, desde a educação básica.”
- “Num ambiente transacional como o financeiro, ninguém é seguro sozinho. Se o ecossistema não mantiver um nível mínimo de proteção, qualquer fragilidade periférica pode se transformar em risco sistêmico. Segurança hoje é ecossistêmica, colaborativa e contínua.”

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