“O amanhã é hoje” — e a China já entendeu

Por The Shift
A China entrou em um novo ciclo de planejamento com uma mensagem bastante clara: o crescimento dos próximos cinco anos será menos sobre velocidade e mais sobre controle, resiliência e poder tecnológico. O 15º Plano Quinquenal, que cobre o período de 2026 a 2030, mantém a ênfase em “alta qualidade” do crescimento, mas coloca inovação, autossuficiência tecnológica e modernização industrial como a espinha dorsal da economia, da competitividade externa e até da gestão de riscos internos.
Entre as metas oficiais para 2030 estão elevar a participação do valor adicionado das indústrias centrais da economia digital para 12,5% do PIB, manter o crescimento anual do gasto social em P&D acima de 7% e elevar o número de patentes de invenção de alto valor para mais de 22 por 10 mil habitantes. Em 2025, o gasto total em P&D já havia atingido 3,92 trilhões de yuans, enquanto a economia digital central respondia por cerca de 10,5% do PIB e o país tinha 16 patentes de alto valor por 10 mil habitantes.
A China não está mirando apenas software, chips ou IA Generativa. Até 2030, a China quer liderar em tecnologias emergentes e IA. O plano desenha um ecossistema tecnológico completo. O termo Inteligência Artificial aparece mais de 50 vezes no documento. O texto também destaca um plano de ação “AI+”, pensado para espalhar IA por Manufatura, Saúde, Logística, Educação e Governança Pública. Ao mesmo tempo, o país prioriza Semicondutores, Computação Quântica, Biomanufatura, Robótica Humanoide, Interfaces Cérebro-
computador, 6G, Hidrogênio Verde, Energia Nuclear e equipamentos médicos de alta complexidade.
Há uma mudança de escala aí. O plano não fala apenas em desenvolver tecnologia, mas em transformar descoberta científica em capacidade industrial e mercado doméstico. Um dos pontos mais fortes é justamente a tentativa de conectar laboratório, teste-piloto e produção em massa. A lógica é sair do “0 para 1” na pesquisa, passar pelo “1 para 10” em plataformas de teste e chegar ao “10 para milhares” nas empresas. Isso ajuda a entender por que o plano enfatiza bases nacionais de aplicação de IA, consórcios de inovação, incentivos tributários, fundos de venture capital e maior participação das empresas nas decisões de ciência e tecnologia.
Robótica é um dos capítulos mais reveladores: a China elevou “Embodied Intelligence”, ou IA Física em máquinas, a uma posição estratégica inédita. Trata-se de usar Robótica como infraestrutura para modernizar a indústria, enfrentar escassez de mão de obra, apoiar cuidados com idosos e criar novos padrões industriais. O país já parte de uma posição muito forte: em 2024, instalou 295 mil robôs industriais, o equivalente a 54% do total global, e chegou a uma densidade de 470 robôs por 10 mil trabalhadores da indústria, superando Alemanha e Japão. No segmento de humanoides, as empresas chinesas responderam por cerca de 90% das unidades enviadas globalmente em 2025.
O 15º Plano Quinquenal revela uma obsessão com infraestrutura. A China quer ampliar clusters hiperescaláveis de computação para treinar modelos avançados
de IA, apoiar comunidades open source e reduzir dependência externa em gargalos tecnológicos. No front mais sensível, o plano fala em “medidas extraordinárias” para avançar em tecnologias centrais, incluindo Circuitos Integrados, Software, Materiais Avançados e Biomanufatura. Em Computação Quântica, o objetivo inclui rede integrada de comunicação quântica entre espaço e Terra, computadores quânticos tolerantes a falhas e avanços em medição quântica. É um desenho que mistura política industrial, segurança nacional e visão de longo prazo.
Há também uma dimensão externa relevante. Apesar da retórica de autossuficiência, o plano não fecha a porta ao capital estrangeiro. Pelo contrário: continua prometendo ampliar acesso em Telecomunicações, Saúde, Biotecnologia e Serviços, além de atrair multinacionais para instalar centros regionais de P&D no país. O problema é que isso acontece num ambiente de competição mais dura: o uso efetivo de investimento estrangeiro caiu 9,5% em 2025, ainda que o governo tenha reduzido a lista negativa de acesso ao investimento externo de 117 para 106 áreas restritas. Ou seja, a China quer mais capital e tecnologia estrangeira, mas em setores alinhados às suas prioridades estratégicas.
Para quem observa de fora, o principal insight é que o Plano Quinquenal funciona como coordenador de orçamento, prioridades industriais, metas regulatórias e execução regional. Isso significa que, quando Pequim diz que quer IA, Robótica, Computação Quântica e Manufatura Avançada, a máquina pública e os governos locais começam a traduzir isso em subsídios, compras públicas, fundos, infraestrutura, zonas piloto e padronização técnica. É essa capacidade de transformar prioridade política em mercado que ajuda a explicar por que o mundo presta tanta atenção aos planos quinquenais chineses.

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