País continental, o Brasil contou com o empenho dos provedores de internet para levar a conectividade ao interior. Ainda hoje, a internet no campo é crítica em algumas localidades, mas houve um avanço enorme. Eduardo Neger, que presidiu a Abranet em dois períodos de quatro anos, em 2011 e depois 2019, foi um destes desbravadores.
“Na época, o nosso nicho específico, a área em que a gente trabalhava e tinha mais proximidade, era a conectividade na área rural. Nossa empresa sempre atuou com engenharia de radiofrequência e antenas. A forma de levar conectividade para a área rural era através de sistemas sem fio, basicamente, estações celulares fixas. Você tinha uma antena que capturava o sinal celular da área urbana e conseguia amplificá-lo ou, através de um modem externo, estabelecer conexão nos primeiros protocolos de internet — no 2G e no início do 3G. Era uma conectividade que não tinha a qualidade a que estamos acostumados hoje com banda larga e fibra, mas, para quem estava numa área remota, trazia muito valor”, lembra.
Esse modelo começou no início dos anos 1990, com a implementação da telefonia celular no Brasil. Na época, eram serviços caros e com limitação técnica de velocidade. Por isso, a grande sacada da utilização das redes celulares para conexão rural foi reaproveitar uma infraestrutura já construída para a área urbana ou para a cobertura de estradas. “Se a operadora tivesse que construir redes celulares exclusivamente para cobertura rural, a conta não fecharia.”
O impacto foi gigantesco. “Foi aí que começamos a entender na prática o conceito de conectividade e seu impacto no campo. Com a evolução dos provedores de acesso e operadores regionais, essas operações passaram a ser feitas via enlaces de rádio”, avalia Neger. Era famoso “via rádio” que permitiu um grande crescimento dos provedores regionais, que conseguiram estruturar suas redes sem custos proibitivos usando faixas não licenciadas de Wi-Fi, inicialmente em 2,4 GHz e depois em 5,8 GHz. A partir daí, evoluíram até que a fibra óptica se tornasse viável.
Atualmente, ainda que a cobertura celular tenha melhorado bastante na maioria das áreas urbanas do Brasil, as obrigações regulatórias das operadoras móveis cobrem apenas a sede dos municípios. “Quando olhamos para o interior do Brasil, existem municípios gigantescos com vários distritos — e às vezes o distrito é maior do que a própria sede. Essas áreas acabam ficando desassistidas”, reflete Neger, jogando luz para um problema atual: Quem está em uma área rural muito afastada ainda enfrenta dificuldades.
Nesse sentido, o avanço dos satélites é mais uma alternativa, além das antenas externas e amplificadores. As redes de satélite de baixa órbita (LEO), como a Starlink, cresceram muito nos últimos quatro anos. “A tecnologia satelital amadureceu para cobrir essas regiões. Existe quem discuta se o satélite vai substituir o celular na cidade, mas isso é bobagem para áreas urbanas devido a obstáculos, densidade de prédios e limitação de espectro. Mas para áreas remotas é a solução ideal: gera baixa latência e reduz drasticamente os custos, pois elimina a necessidade de infraestrutura terrestre (torres, postes, fibras) e exige apenas o terminal do usuário. Hoje podemos afirmar com certeza que, onde se desejar conectividade no Brasil, é possível obter via satélite”, diz Neger.
A empresa de Neger se destacou também em outro negócio: a tecnologia de bloqueio de sinal em presídios. Ele conta que tudo começou com uma falha acidental. “Estávamos montando um amplificador/repetidor de sinal celular para área rural. Diz a lenda que um estagiário cometeu um erro na montagem do equipamento e ele começou a gerar um ruído fortíssimo. Em vez de entregar um sinal limpo, gerou uma interferência que impedia qualquer conexão na área.” E, assim, surge o bloqueador de sinal de celular.
Soluções de bloqueio (jamming) existem no mundo todo, muito usadas na área militar (como vemos na guerra eletrônica atual na Ucrânia para neutralizar drones). No entanto, o Brasil e outros países da América Latina têm uma característica única: presídios encravados em áreas urbanas extremamente densas. “As soluções americanas ou europeias não serviam aqui porque bloqueavam o presídio, mas derrubavam a telefonia do bairro inteiro junto. Tivemos que criar do zero uma tecnologia de ultraconfinamento de sinal”, destaca.
Na cidade de São Paulo, a empresa nós bloqueávamos três presídios. O presídio ficava totalmente sem sinal, enquanto na calçada do lado de fora, em shopping centers, casas e avenidas ao redor (como ao lado da Marginal), o sinal das operadoras funcionava perfeitamente. O grande desafio foi confinar a interferência estritamente ao perímetro do presídio; e a cada nova tecnologia lançada no mercado (3G, 4G, novos padrões de Wi-Fi), era necessário desenvolver o “antídoto” correspondente.
A empresa de Eduardo Neger operou diretamente as 29 principais unidades prisionais do estado de São Paulo durante dez anos (de 2013 a 2023), mantendo um índice superior a 99,9% de bloqueio sem registros de falhas. “Em 2023, incentivamos os técnicos e gestores que lideravam esse projeto na nossa empresa a criarem uma spin-off. Eles venceram a nova licitação e continuam executando esse trabalho em São Paulo.”
Mas e ele? “Nós voltamos nosso foco para o desenvolvimento e engenharia de hardware, com 17 equipamentos homologados pela Anatel”, frisa. Outra solução inovadora foi o “antidrone”, que também nasce de um “acidente de percurso”. “Um dia, em um dos presídios onde mantínhamos o bloqueio, a equipe de engenharia civil da Secretaria de Administração Penitenciária foi fazer uma vistoria no telhado e tentou subir um drone para capturar imagens. O drone simplesmente não decolava por conta da interferência do nosso sistema. Eles ligaram reclamando e o mesmo estagiário disse: “Olha aí, mais um produto novo!” Viramos a antena para cima e desenvolvemos a solução antidrone”, lembra.
E, falando sobre a associação, Neger destacou sua versatidade em acompanhar os desenvolvimentos. “A Abranet tem uma característica marcante: desde o começo ela nos atraiu por reunir um grupo heterogêneo de empresas. Você tem desde empresas de conteúdo e comércio eletrônico até as de conectividade. Mais recentemente, a associação acompanha o efeito disruptivo da internet no mercado. Cada setor que sofre o impacto da adoção da internet gera uma série de novos negócios e, via de regra, discussões regulatórias e jurídicas. A entidade é um elemento importante para dar esse suporte e conduzir esse debate”, analisa Neger.



