Brasil é o mais maduro em transformação digital da AL, mas desafios operacionais persistem
O Brasil tem a maior maturidade digital centrada em plataformas da região, mas 63% das organizações ainda gastam mais na manutenção da TI existente do que em inovação

Embora o Brasil tenha se consolidado como o mercado com maior maturidade digital da América Latina, muitas organizações continuam enfrentando desafios operacionais decorrentes de ambientes de TI fragmentados, infraestrutura legada e da crescente pressão para demonstrar retornos mensuráveis sobre os investimentos em Inteligência Artificial (IA). Foi o que mostrou o estudo “O Estado da Transformação Digital na América Latina 2026”, publicado pela ManageEngine.
O Brasil está liderando ativamente a evolução da América Latina para além das arquiteturas de software em silos. Quase um terço das empresas brasileiras (32%) realizou com sucesso a transição para um modelo centrado em plataformas e 25% já se identificam como orquestradas por IA, as maiores proporções entre os países pesquisados. No entanto, a maturidade digital não eliminou a complexidade operacional. Os entrevistados também classificaram “segurança em ambientes cada vez mais complexos”, a “gestão dos custos de infraestrutura” e a “gestão de dados corporativos” como alguns dos desafios mais significativos da transformação digital do país.
Para 71% dos entrevistados brasileiros, a proliferação de ferramentas aumentou significativamente a complexidade de infraestrutura e gerenciamento nos últimos dois anos. Enquanto isso, 63% revelam que uma fatia maior de seus budgets de TI é gasta na manutenção de sistemas existentes do que em inovação. As empresas no Brasil estão navegando por ambientes de TI altamente fragmentados. Em média, as organizações locais utilizam 18 soluções pontuais distintas simultaneamente, a maior taxa de fragmentação de software na região da América Latina. Essa saturação de aplicativos desconectados cobrou um alto preço operacional.
Em nota à imprensa, Tonimar Dal Aba, gerente-técnico da ManageEngine no Brasil, afirmou que o Brasil progrediu significativamente na modernização de TI empresarial, mas a modernização por si só não garante a transformação. Segundo Dal Aba, simplificar ecossistemas de tecnologia está se tornando tão importante quanto expandi-los. “Maior visibilidade, resiliência operacional e a governança necessária para apoiar a IA em escala dependem do quão bem essas tecnologias funcionam juntas”, destacou.
O estudo também revela uma lacuna crescente entre o nível de preparação para a Inteligência Artificial e a geração de valor para os negócios. Embora 92% das organizações brasileiras acreditem que seus ambientes tecnológicos estão prontos para apoiar iniciativas de IA, 62% afirmam que ainda enfrentam dificuldades para obter retornos mensuráveis sobre esses investimentos.
Os entrevistados apontaram preocupações relacionados à segurança e conformidade, escassez de talentos e ambientes tecnológicos fragmentados como as principais barreiras que impedem as organizações de escalar suas iniciativas de IA com sucesso. De fato, 89% dos entrevistados brasileiros afirmam que a fragmentação tecnológica limita sua capacidade de expandir essas iniciativas, com 35% deles relatando um impacto significativo.
Na avaliação de Kishore Kumaar, country manager da ManageEngine no Brasil, as organizações brasileiras estão entrando em uma nova fase de transformação digital onde as decisões tecnológicas são impulsionadas cada vez mais por resultados de negócios em vez da expansão de recursos. “Os clientes estão dando maior ênfase à otimização de custos de TI, redução de despesas gerais operacionais e consolidação de ferramentas sem comprometer os recursos que seus negócios exigem. Eles também estão buscando plataformas que possam apoiar novas iniciativas de IA sem adicionar complexidade desnecessária. Essa mudança está remodelando a forma como as organizações avaliam a tecnologia corporativa, com um foco mais forte em valor mensurável, eficiência operacional e escalabilidade de longo prazo”, disse, em nota.
Cibersegurança precisa de integração
À medida que a infraestrutura se torna mais complexa, proteger o perímetro fica cada vez mais difícil. Mais da metade (56%) das organizações brasileiras relatam ter sofrido um aumento de ataques cibernéticos bem-sucedidos em 2025 em comparação com anos anteriores. Ao mesmo tempo, 74% expressam preocupação com o vazamento de dados decorrente do uso de ferramentas de IA generativa não autorizadas pelos funcionários, destacando os crescentes desafios de governança que acompanham a adoção de IA pelas empresas.
Esses resultados reforçam que a cibersegurança não pode mais ser tratada de forma isolada da transformação digital. À medida que as organizações incorporam IA, serviços em nuvem e automação em ambientes cada vez mais distribuídos, manter a visibilidade e governança consistente em todas as operações de TI torna-se essencial para fortalecer a resiliência cibernética.
O relatório conclui destacando uma profunda desconexão organizacional entre a liderança de negócios e as equipes responsáveis pela implementação técnica. Embora 91% dos entrevistados na região digam que as áreas de negócios e TI estão, em grande medida, alinhadas, apenas 40% dos executivos brasileiros consideram que suas lideranças estão “muito alinhadas” quanto às reais prioridades de transformação digital.
A responsabilidade também permanece bastante fragmentada: 39% afirmam que a estratégia de transformação digital cabe inteiramente ao CEO/liderança executiva, outros 39% afirmam que pertence ao CIO/liderança de TI, e meros 22% relatam um modelo de responsabilidade corporativa verdadeiramente compartilhada.
Quase um terço dos entrevistados brasileiros (32%) afirma explicitamente que simplificar e unificar o conjunto de tecnologias não é uma prioridade estratégica compartilhada entre a alta liderança e as equipes de TI. Essa lacuna de alinhamento precisa ser superada para que as empresas brasileiras alcancem resultados duradouros em suas iniciativas de transformação no ecossistema digital.


