IA deixou de ser disputa de inteligência. Virou disputa de dinheiro

Por The Shift
A ICONIQ Capital acaba de publicar a segunda edição do “State of AI”, com base em pesquisa realizada com aproximadamente 300 executivos de empresas que desenvolvem produtos de IA, feita no último trimestre de 2025. A comparação com o estudo anterior, feito no 2° trimestre de 2025, revela uma mudança estrutural. O setor saiu da fase de exploração intensiva de LLMs e entrou em um ciclo de consolidação operacional. A discussão deslocou-se de benchmarks técnicos para arquitetura de produto, margem e viabilidade econômica.
O valor está sendo capturado nas aplicações verticais. Hoje, 70% das empresas desenvolvem aplicações verticais de IA, ante 59% no primeiro semestre de 2025. Além disso, 49% indicam que sua principal fonte de diferenciação está na camada de aplicação – UX proprietária, integrações específicas e incorporação profunda a fluxos de trabalho. A criação de valor concentra-se na capacidade de compreender processos setoriais com precisão e redesenhá-los com IA integrada ao produto ofertado, de ponta a ponta.

A arquitetura tecnológica acompanha essa mudança. As empresas utilizam, em média, 3,1 fornecedores de modelos, ante 2,8 no levantamento anterior. OpenAI aparece em 77% dos casos; Google/Gemini subiu de 43% para 55%; Anthropic/Claude está presente em 51%. A diversificação sugere que modelos estão sendo tratados como infraestrutura tecnológica selecionada conforme custo, latência e adequação à tarefa.
À medida que os produtos escalam, custo e latência tornam-se variáveis centrais. Modelos menores ou ajustados absorvem tarefas de alto volume; modelos de fronteira são acionados para casos complexos. O roteamento dinâmico passa a impactar diretamente a margem operacional.
A projeção média de margem bruta para produtos de IA em 2026 é de 52%, ante 41% em 2024. A melhora indica maturidade operacional crescente. No entanto, a composição de custos mudou. A participação de talentos caiu de 32% para 26% do gasto total, enquanto a inferência subiu para 23%. O custo marginal por chamada de modelo tornou-se variável estratégica.

No campo da monetização, a precificação por assinatura permanece predominante, representando 58% do mercado. A cobrança baseada em consumo alcança 35% e a baseada em resultados 18%, avanço relevante frente aos 2% registrados em 2025. Além disso, 37% das empresas planejam alterar seu modelo de precificação nos próximos 12 meses.

Os principais vetores dessa mudança são demanda por modelos baseados em consumo ou resultado (46%), busca por maior previsibilidade (40%) e pressão competitiva (39%). Modelos híbridos tornam-se recorrentes, combinando assinatura com mecanismos de ajuste por uso ou desempenho. O objetivo é alinhar monetização ao valor mensurável entregue ao cliente sem comprometer previsibilidade de receita.
Um exemplo citado envolve uma empresa com 1,6 milhão de chamadas mensais, que reduziu o tempo médio de atendimento de 15 minutos para 4–5 minutos, com melhora de três vezes na satisfação do cliente. Em escala, o modelo exclusivamente baseado em resultado tornou-se oneroso, levando à renegociação para assinatura ampliada. O caso indica que maturidade operacional influencia diretamente a sustentabilidade do modelo de preço.
Os dados do relatório indicam que a vantagem competitiva em 2026 está sendo construída em quatro dimensões integradas:
- Aplicações verticais com domínio de workflow
- Arquitetura multimodelo eficiente
- Controle rigoroso de custo de inferência
- Modelos de precificação alinhados ao valor mensurável.
O recado para lideranças executivas? A avaliação estratégica de IA deve incorporar métricas de custo marginal por tarefa, governança técnica da arquitetura e coerência entre modelo operacional e modelo de receita. A disciplina econômica passou a ser critério central para a transformação da IA em infraestrutura básica de qualquer negócio.

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