Seu próximo celular pode ser pior. E mais caro

Por The Shift
Um choque na oferta global de memória DRAM e NAND está pressionando fabricantes de PCs e smartphones e pode provocar um dos maiores reajustes de preços e mudanças estruturais do setor em anos. Nas projeções para 2026, enquanto os preços sobem, o número de dispositivos vendidos deve cair. O IDC estima que:
- O mercado global de PCs deve cair 11,3% em 2026, embora a receita cresça 1,6% graças ao aumento dos preços médios (ASPs).
- O mercado global de smartphones deve recuar 12,9%, com uma pequena queda de 0,5% na receita total.
O Gartner vai na mesma linha e estima um aumento de 130% nos preços combinados de memória DRAM e unidades de estado sólido (SSDs) até o final de 2026, o que elevará os preços dos PCs em 17% e os dos smartphones em 13%, em comparação com os níveis de 2025. O estudo do Counterpoint também cita queda de 12% para este ano.

Essa queda representa uma das maiores retrações da indústria móvel em mais de uma década. Em números absolutos, os embarques de smartphones devem cair de 1,26 bilhão de unidades em 2025 para cerca de 1,12 bilhão em 2026. Apesar disso, o preço médio dos dispositivos deve atingir um recorde histórico: US$ 523 por aparelho, um aumento de cerca de 14% em relação ao ano anterior.
Esse fenômeno – menos unidades vendidas, preços mais altos – deriva do aumento dos preços das memórias, e da escassez do insumo, por conta da corrida global de infraestrutura de Inteligência Artificial: data centers voltados à IA consomem volumes massivos de memória avançada, competindo diretamente com a produção destinada a dispositivos de consumo.

PCs e smartphones com menos memória
Uma das consequências diretas dessa pressão de custos pode ser algo impensável até pouco tempo atrás: dispositivos novos com menos memória do que os modelos anteriores. Esse movimento quebra uma das regras não escritas da indústria: a melhoria contínua de especificações por geração.
De acordo com analistas do IDC, alguns fabricantes já avaliam reduzir as especificações padrão para manter preços competitivos. Um smartphone que antes seria lançado com 12 GB de RAM e 256 GB de armazenamento pode chegar ao mercado com 8 GB de RAM e 128 GB de armazenamento, ou manter as especificações, mas com preço bem maior. O mesmo pode ocorrer nos PCs, especialmente nos modelos de entrada, com redução na quantidade de RAM ou no armazenamento SSD.
A pressão da memória pesa mais no segmento de baixo custo, onde as margens são mínimas. Hoje, grande parte do crescimento global de smartphones ocorre em aparelhos baratos. Em 2025, mais de 360 milhões de smartphones vendidos custavam menos de US$ 150, segundo estimativas do IDC. Em países da África, esses aparelhos representam quase 60% do mercado, e na Índia, cerca de 30%.
Com a alta do custo de memória, muitos fabricantes podem simplesmente abandonar esses segmentos. Em alguns casos, smartphones abaixo de US$ 100 podem se tornar economicamente inviáveis. Isso pode provocar efeitos em cadeia:
- Consumidores adiando a troca de aparelhos.
- Crescimento do mercado de smartphones usados.
- Retorno de “feature phones” (telefones básicos inteligentes) em alguns mercados emergentes.
A crise chega no pior momento para os AI PCs
O timing da escassez também é problemático para outra aposta da indústria: os AI PCs. Nos últimos dois anos, fabricantes e empresas de software vêm promovendo computadores equipados com NPUs (Neural Processing Units) capazes de executar tarefas de IA diretamente no dispositivo (IA Local). Mas executar IA localmente exige grandes quantidades de memória. Modelos de linguagem locais, sistemas de agentes e aplicações multimodais precisam lidar com grandes volumes de dados e contextos extensos.
Reduzir a quantidade de RAM nos PCs pode comprometer justamente essa visão de computação baseada em IA Local, conforme a análise do IDC. No momento em que a indústria tenta transformar o PC em um hub de IA pessoal, a escassez de memória pode limitar essa capacidade.
Mas validando a tese de que a “desgraça” de alguns é a oportunidade de outros, analistas acreditam que a Apple estaria adotando preços competitivos para seus novos iPhone 17e e MacBook Neo de entrada, visando ganhar participação de mercado em meio ao aumento dos custos de memória.
Consolidação do mercado de dispositivos
A crise de memória pode promover uma reconfiguração do mapa competitivo da indústria. Empresas com maior poder de compra e contratos de longo prazo com fornecedores de memória tendem a garantir acesso ao componente, ainda que a preços elevados. Já os fabricantes menores podem ter dificuldades para competir.
Esse movimento pode provocar mudanças de participação de mercado em favor dos grandes fabricantes globais. Esse processo pode levar a:
- Saída de players menores
- Consolidação entre fabricantes
- Redução do número de modelos disponíveis.
Em outras palavras, menos diversidade no mercado e possivelmente menos competição em alguns segmentos. De acordo com dados do IDC, a crise atual não representa apenas uma desaceleração cíclica, mas um “reset estrutural” do mercado de dispositivos, afetando o tamanho do mercado endereçável, o mix de produtos e o equilíbrio competitivo entre fabricantes.
A recuperação pode demorar. As projeções apontam para:
- Estagnação no mercado de PCs em 2027, com recuperação apenas em 2028.
- Crescimento modesto de smartphones de 1,9% em 2027, seguido de 5,2% em 2028.
Até lá, empresas e consumidores terão de conviver com um novo cenário: dispositivos mais caros, ciclos de troca mais longos e uma indústria tentando equilibrar a explosão da IA com as limitações físicas da cadeia de semicondutores. Ou as empresas podem rever sua cadeia de produção e seguir o exemplo da Europa, que representa mais de 30% da receita global de TI recondicionada, com um mercado avaliado em US$ 1.572,78 milhões. Estima-se que o mercado global atinja US$ 5.242,6 milhões em 2025.

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